Você não deveria ler esse livro (uma reflexão sobre book shaming)

O título deste post é uma provocação. Eu adoro livros – e cresci com uma liberdade imensa para ler o que quisesse. A leitura, para mim, sempre foi um momento de grande liberdade, de entrar num mundo diferente do meu, de viver uma vida diferente da minha, mas que eu havia escolhido.

Com essa liberdade, entrei em contato com os mais diversos autores, gêneros e estilos. E, assim, fui me descobrindo também. Entendi que, para cada livro, há um momento certo. Às vezes, preciso de algo leve, engraçado. Às vezes, estou forte o suficiente para encarar desafios complicados, como grandes reportagens sobre temas nada felizes. Em outros momentos, quero o diferente, o exótico, o bizarro. Em outros, ainda, quero aprender algo completamente novo, ou preciso de uma palavra de incentivo, ou gostaria de revisitar um local que deixou saudade.

catsAcredito que essa imensa liberdade, que me proporcionou tantos momentos fantásticos e ajudou muito no meu processo de autoconhecimento, é o que me fez uma amante dos livros. É por isso que acho triste e extremamente contraproducente a prática de humilhar as pessoas devido aos livros que elas estão lendo. Acreditem, isso existe (eu já vi!!!) e tem até um nome: book shaming.

Agora, para deixar bem claro: book shaming não é o que acontece quando dizemos que não gostamos de um livro específico, mas é quando ofendemos e humilhamos uma ou mais pessoas devido aos livros que elas leem.

Isso, na minha visão, além de ser errado porque, bem, agressão por qualquer motivo é errado, ainda afasta muitas pessoas dos livros e interfere, consequentemente, no importante processo de autoconhecimento. Se os outros sabem o que é bom, e sabem tão bem que, devido ao meu “erro”, fui agredido, por que pensar por mim mesmo? E, na verdade, se fui humilhado por ler um livro, melhor fazer outra coisa.

Acho que, para sabermos se um livro é bom ou ruim, precisamos ler. Precisamos ler muito e criar os nossos próprios critérios. Precisamos ler para conhecer o nosso gosto. Precisamos ler para conhecer intimamente a nossa língua, para identificar os clichês, e para, depois de ler tanto e tanto, ainda sermos surpreendidos.

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Precisamos chegar às nossas próprias conclusões. Claro, o diálogo ajuda muito, mas agressão verbal não é – nunca foi e nunca vai ser – diálogo.

Um exemplo: eu vi de perto book shaming quando li alguns comentários terríveis sobre “o tipo de pessoa que lê 50 Tons de Cinza”. Pois bem, nunca li a trilogia, mas acredito que ela poderia sim ser o tema de um bom papo. Algumas perguntas vêm à minha cabeça: de onde vem o fetiche da submissão, como a questão do empoderamento feminino pode ser vista no contexto da história, se é que pode, e como lidar com o sucesso dessa obra num contexto em que os números da violência contra a mulher são alarmantes? Quando se começa com agressões, entretanto, fecha-se imediatamente toda a possibilidade de diálogo.

Já ouvi algumas vezes que o tempo é curto para lermos livros ruins. Porém, acho que o tempo é curto demais para não sermos livres, para não embarcarmos nas viagens literárias que queremos fazer, para não darmos uma chance ao desconhecido, para não estarmos abertos à surpresa e, sim, até ao desapontamento.

O tempo é curto, acima de tudo, para agredirmos uns aos outros.

Mais sobre o tema, recomendo este post (em inglês).

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