Sobre criatividade e compaixão

Hoje, voltando para casa de trem, ofereci meu lugar para uma senhora. Ela gentilmente declinou, explicando que, devido a problemas na coluna, sentia-se melhor em pé. Algumas estações adiante, outra senhora entra e, novamente, recusa o assento no qual eu estava. “Vou descer na próxima”, disse.

2014-05-28 20.04.18

Lembrei-me de um post que vi há algum tempo no Facebook, na linha do tempo de vários amigos. Mostrava um senhor de idade em pé, no trem, ao lado de um casal jovem que, por sua vez, estava sentado no banco preferencial. A ideia do post era chamar atenção dos passageiros sem educação, o que é bacana. O problema é que, talvez, o post em si seja uma baita falta de educação, expondo aquelas pessoas ao apedrejamento popular que tanto gostamos de fazer nestes tempos de redes sociais na internet.

Por quê? Por que não sabemos a história deles. Não sabemos se realmente aquela configuração, por assim dizer, deveu-se à falta de consideração dos mais jovens com os mais idosos. Vai que o senhor queria ficar em pé, vai que a moça passou mal, vai que estava grávida… Não sabemos, não estávamos lá, não falamos com eles, não perguntamos os seus motivos. Concluímos alguma coisa a partir de um pequeno fragmento e passamos a pedir a justiça que não estamos dispostos a dar.

Essa justiça que nos falta é conhecida como “o benefício da dúvida”, e é exatamente o contrário da nossa falsa justiça que julga tudo e todos com base em quase nada – a não ser nossos preconceitos e nossa necessidade de apedrejar alguém naquele dia.

O colega cumprimentou com um sorriso torto? Talvez o pai dele esteja no hospital ou o filho, com febre. Talvez ele tenha se dado conta de que não vai conseguir pagar todas as contas naquele mês. Talvez a mulher tenha pedido o divórcio. Talvez ele esteja pensando em pedir o divórcio. Talvez o almoço não tenha caído bem. Talvez ele esteja com enxaqueca. Talvez ele esteja com insônia.

Deu para ver como imaginar algumas das infinitas possibilidades por trás do comportamento de uma pessoa tem tudo a ver com compaixão? Antes de sair falando mal do fulano-com-cara-azeda-que-nem-cumprimenta-os-colegas-direito, que tal imaginar alguns motivos que podem estar por trás de seu comportamento? E, quem sabe, ao invés de falar mal do cara, ir lá ver se ele precisa de alguma ajuda?IMG_20150518_210247

Isso vale para tudo. Claro, nem sempre é fácil. Mas o cara na recepção do hospital pode estar tendo um dia horrível, pode já ter sido xingado injustamente por alguns pacientes impacientes, pode estar ele mesmo com alguma dor ou doença ou preocupação. A pessoa sobre quem fizeram fofoca talvez não seja tão má assim – que tal imaginar que, talvez, apenas talvez, quem nos passa as “informações” não tenha o quadro completo e esteja, ao mesmo tempo, misturando seus próprios problemas e medos e preconceitos ao seu relato?

Vamos imaginar mais, pelo bem de todos nós. Vamos dar espaço em nossas vidas às teorias malucas, às hipóteses doidas, às histórias mais inverossímeis e dar o benefício da dúvida aos outros. Podemos estar errados, claro. Mas a ideia é exatamente esta: sempre podemos estar errados, até nas conclusões que mais parecem óbvias.

 

Categorias: Filosofando sobre a existência

1 comentário

  • Marly

    Muito bem posto. Como Professora , tinha a pessima mania de julgar os alunos pela aparencia por ocasiao do primeiro dia de aula. A vida me ensinou como eu estava errata. Que bom que eu estava errada. Aprendi muito e hoje procuro nao avaliar as pessoas e situacoes antes de ter mais informacoes. E querem saber, para que julgar?

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