Sobre o meu novo filme preferido – e sobre como escolher as nossas lutas

Ok, falar em filme preferido (assim como em livro preferido) é meio complicado… Mas posso dizer que ontem descobri meu filme preferido dos últimos tempos. Fui ver Perdido em Marte sem grandes expectativas, mas me surpreendi com uma belíssima história sobre sobrevivência, perseverança, cooperação, idealismo e bom humor.

Acho que posso contar a trama por cima, sem spoilers, da seguinte maneira: uma equipe de pesquisadores tem de abortar uma missão em Marte e acaba deixando um membro para trás, por acreditar que ele estava morto. Só que ele não estava. E são a engenhosidade, a ciência e o bom humor que permitem que o astronauta Mark Watney sobreviva no ambiente mais inóspito que podemos imaginar.

Enquanto isso, na Terra, as pessoas se unem para encontrar uma forma trazê-lo de volta. Todos se unem: não há vilões. E isso é incrível!

Raramente temos uma história sem mocinhos e vilões, sem o lado bom e o lado mau. Pode parecer besteira, mas ver uma história bacana, bem contada, cheia de esperança, e ainda na qual não há vencedores E perdedores, apenas pessoas tentando fazer o seu melhor, me fez muito bem.

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No fundo a questão é: o que é importante?

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Falando em histórias sem conflito, terminei há poucos dias de ler um livro (de fantasia!) no qual não há conflitos entre um mocinho e um vilão: O Feiticeiro e a Sombra (A Wizard of Earthsea), da Ursula Le Guin. No final tem um texto da autora explicando como ela buscou subverter algumas regras do gênero.

A narrativa acompanha os primeiros passos de um mago que viria a se tornar um dos maiores do mundo. Contudo, no começo Ged é extremamente arrogante, competitivo e imaturo. Até que uma grande besteira feita por ele mesmo o obriga a encarar seus defeitos, seus medos e seu lado obscuro. Só depois disso ele poderá seguir adiante.

A autora conta que quis exatamente mostrar uma aventura na qual não havia guerras nem um inimigo externo a ser destruído. Há conflito, sim, mas um conflito interno, necessário para o crescimento. Não há lado bom e lado mau, há apenas a possibilidade de melhoria.

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Pois tudo isso me fez pensar em como é necessário – e difícil – encontrar o equilíbrio na vida real. Gosto de uma boa conversa, claro, mas não gosto de conflito, de discussões acaloradas, de brigas. Tendo, num primeiro momento, a ficar quieta para não me estressar. Contudo, é certo se calar frente ao machismo, ao racismo e à homofobia, por exemplo? Esses problemas, infelizmente, fazem parte do nosso dia a dia aqui, e é preciso combatê-los. Não acho que a busca por harmonia deva passar por cima da busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Até porque sem justiça e igualdade nunca teremos harmonia de verdade.

Mas quando é melhor falar – e quando é melhor calar? Em que brigas entrar? Que brigas evitar? Essas são questões, para mim, dificílimas.

Alguns parâmetros ajudam, na minha opinião: quando alguém demonstra estar com muita raiva, é preciso muita serenidade para não entrar na lama da raiva junto com o outro, porque daí ninguém mais tem razão. O melhor, logo, é esperar a raiva passar. Também não se vai a lugar algum quando o interlocutor só quer zoeira. Muitas pessoas, infelizmente, tratam temas sérios como se fossem piada. Acho que, nesses casos, ignorar é a melhor solução.

Como vocês escolhem as suas lutas? Frente a que problemas não conseguem calar?

Categorias: Filosofando sobre a existência

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