O dinheiro é um incentivo? Eu acho que todo mundo deveria ganhar bem!

O dinheiro é um incentivo? Dia desses eu estava conversando com um amigo sobre política e uma hora ele disse: “mas sei que alguns precisam ganhar mais do que outros, o dinheiro é um incentivo para termos pessoas em certas profissões”. Na última vez em que eu havia pensado no assunto, havia pensado exatamente o mesmo. Só que, agora, percebi que vejo as coisas de uma forma diferente.

Eu sempre fui bem no colégio, tirei boas notas, nunca peguei recuperação, essas coisas. Poderia ter feito qualquer faculdade, até porque minha mãe, professora, sempre me incentivou a estudar bastante e a seguir meus sonhos. E eu fiz jornalismo e filosofia. Sempre quis ser jornalista, para passar o dia escrevendo sobre as coisas interessantes do mundo. Quem não iria querer uma vida dessas? Fiz filosofia também porque me ajudaria (e acho que ajudou) a ser uma jornalista melhor.

Dia desses, meu avô me disse que sempre quis que eu tivesse me tornado médica. Pois bem, expliquei pra ele que detesto tanto hospitais que preferiria passar meus dias num cemitério. Não nasci pra coisa, mesmo.

Formatura de Filosofia 🙂

Se eu fosse médica, ganharia bem mais do que ganho hoje. Mas não foi a falta de estudo, de apoio e de inteligência que me afastou da medicina: foi a falta de vocação pura e simples. Assim como foi a vocação que levou a minha mãe para a sala de aula e que fez um dos meus tios, hoje aposentado, a passar boa parte da vida pilotando aviões. (Eu de-tes-to voar, e sempre fico pasma com pessoas que escolhem uma carreira na aviação!)

As pessoas têm vocações diferentes. Ainda bem! Imaginem se todos odiassem hospitais (e aviões) como eu! Os melhores médicos, acredito, nasceram pra coisa. Assim como os melhores enfermeiros. E os melhores professores, jornalistas, engenheiros, programadores, vendedores, policiais… E também acredito que os piores médicos são aqueles que só entraram na profissão pelo dinheiro, e assim por diante.

Então, por que uma pessoa merece ganhar mais do que outra, se cada um de nós nasce, a princípio, com uma inclinação diferente? Duvido que, quando falamos de bons médicos, a pessoa estudou tantos anos, se privou de tanta coisa nos anos de formação e depois, só por dinheiro. Claro, com a esperança de viver com dignidade, ganhando um bom salário. Mas, acima de tudo, para viver um chamado.

Só para deixar claro: não estou dizendo, em absoluto, que médicos não devam ser bem pagos. Muito pelo contrário. Acho que todos nós, todos nós mesmo, merecemos ser bem pagos pelo nosso trabalho. Todos os trabalhos são importantes. O do médico, do enfermeiro, do professor, do agricultor, do padeiro, do vendedor, do empresário…

Se nossa sociedade valorizasse todas as profissões, sem fazer grandes distinções, talvez teríamos ainda melhores profissionais em todas as áreas prestando serviços. As pessoas poderiam seguir seus sonhos, sem ter familiares dizendo que “é ridículo fazer uma licenciatura, faz vestibular pra engenharia” ou algo do tipo. Teríamos menos gente medíocre, vivendo uma vida que não traz felicidade porque “é a carreira que dá mais grana”. Além disso, como teríamos mais gente feliz, teríamos também uma sociedade mais saudável.

Aliás, indo mais longe: concordo com as ideias de renda mínima para todos, independentemente de estarem trabalhando. Porque assim, certamente, apostar em ideias malucas não seria tão arriscado, abrir negócios inovadores, tentar uma mudança de carreira… Tudo pode dar certo, mas também pode dar errado. E quando as pessoas que tentam e falham ficam totalmente desamparadas (e ainda com dívidas), outras, que poderiam estar inovando, acabam vendo que arriscar talvez não valha a pena.

Sim, talvez eu tenha uma visão muito positiva das pessoas. Mas sei que sempre haverá os free riders. Eles estão aqui hoje, vão estar aqui sempre. Também sei que a realização profissional, que viver nosso chamado, traz muita felicidade. Então acho que, com uma sociedade mais igualitária e que nos dá mais chance de arriscar, teríamos profissionais ainda melhores – e mais inovação.

E viva os médicos, os professores, os jornalistas, os vendedores, os empresários, os pilotos de avião, os programadores, os engenheiros, os enfermeiros, os sonhadores, os escritores, os artistas, os inventores, os motoristas, os agricultores, os cozinheiros, os dentistas, os músicos, os arquitetos…

PS: O que mais dá dinheiro hoje é o mercado financeiro. A gente iria querer um mundo em que todos nós trabalhamos nisso? O que iríamos comer? Quem iria construir nossas casas? Curar nossas doenças? Ensinar nossos filhos? Quem faria os filmes para a gente se divertir e as músicas para nos comover?

Categorias: Filosofando sobre a existência

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