Sobre amar o próprio corpo

Existe uma diferença entre o que é a beleza em si e o que é um padrão de beleza de uma cultura específica. A questão do belo intriga filósofos desde que a filosofia existe, e há uma série de ponderações sobre isso ao longo da história – como a Crítica do Juízo de Kant. A ciência também se ocupa desde tema. Este estudo, por exemplo, sugere que tendemos a achar bonito um rosto que representa a média dos rostos de uma população determinada. Mas esse apenas é um exemplo entre muitos.

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Corpo com o qual viajei para St Pete, na Flórida, no mês passado, com o qual amasso muito os meus gatos e tomo o santo café de cada dia!

Talvez por eu ter começado a ler filosofia bastante cedo, entendi logo a diferença entre beleza e um padrão de beleza específico e nunca me abalei muito por não ter um corpo igual ao das modelos das revistas de moda. A beleza é um assunto muito complexo, e na real ninguém ainda tem uma reposta definitiva à pergunta “o que é belo?”.

Achei melhor não perder o sono por causa disso.

O ponto é que amo meu corpo, não o vejo como um inimigo nem quero vê-lo. Se sou bonita ou não, bom… A resposta varia de acordo com quem responde uehaheh. Mas meu amor pelo meu corpo vai muuuuuuito (mas muuuuuuuuuuuuuuuuito) além da questão estética: é que tudo que vivi, vivi por meio do meu corpo. Todos os momentos bons, todas as viagens, todos os carinhos, todas as vezes em que dancei e corri e cantei e li livros maravilhosos e vi filmes fantásticos e abracei quem eu amo – tudo isso sempre foi mediado pelo meu corpo.

Parece óbvio, não? Talvez não seja. Há tantas pessoas que não percebem que seus corpos são maravilhosos, pois proporcionam tanta experiência linda, e declaram contra eles uma guerra a ser vencida por meio de medidas arbitrárias. Miram num padrão – e esquecem de tudo o que fazem de bacana ao longo de suas vidas.

Não estou dizendo que não devemos cuidar de nossos corpos – muito pelo contrário, né? Acredito que não há absolutamente nada de saudável no ódio à própria imagem, nas dietas malucas e na competitividade doida que muito disso acarreta. Além disso, como cuidar bem daquilo que não amamos? Esperar ser de uma forma determinada para começar a nos amar parece uma fórmula para a eterna frustração. Ou seja: uma coisa é cuidar da saúde (fazer exercícios, dormir bem, pensar com cuidado naquilo que se come), e outra é entrar numa batalha feroz contra aquilo que está fora dos padrões em nós, uma batalha cheia de raiva e vergonha e comparações.

Falando em filosofia, Platão, citando Sócrates, escreveu que o corpo é uma prisão da alma. Talvez seja. Ou talvez o grande filósofo estivesse sendo um pouco duro demais. Eu prefiro ver nossos corpos como meios pelos quais vivemos as nossas vidas aqui na Terra, com tudo de bom que isso implica, com todos os seus abraços e carinhos, com toda a sua beleza. Um dia nós diremos tchau a essa “máquina” incrível, mas que seja com gratidão e alegria, não rancores e desprezo. E se depois disso a alma viver ainda mais coisas lindas, também será com gratidão.

PS: Encontrei este artigo muito interessant sobre a questão do corpo no Fédon. O autor argumenta que Platão também via o corpo de forma favorável, apesar da famosa citação. Vale a leitura!

PS2: Para o meu filósofo preferido, Schopenhauer, a investigação filosófica mais profunda que pode haver (a da coisa-em-si, ou seja, das coisas como elas são em si, e não mediadas pelos nosso sentidos e pelas nossa forma de pensar) só é possível por meio da experiência da nossa própria corporeidade (e o corpo nem precisa ser bonito pra isso uehahe.)

Categorias: Filosofando sobre a existência

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