Sou obrigado a aceitar, agora?

O título deste post é inspirado em comentários de Facebook. Esta frase – “sou obrigado a aceitar, agora?” – e suas variações são geralmente usadas por pessoas acusadas de homofóbicas, racistas etc. Fiquei pensando nesse argumento, o de sermos ou não obrigados a aceitar alguma coisa, e resolvi escrever algumas das minhas conclusões.

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Dá ao menos para tentar, né?

“Sou obrigado a aceitar, agora?”, pergunta a pessoa que fez comentários maldosos a respeito de um casal gay. Acredito que há duas respostas, não e sim, e elas não são contraditórias.

Não, ninguém é obrigado a aceitar porque a nossa aceitação não foi requisitada. Não somos obrigados a aceitar simplesmente porque não há nada o que aceitar: vivemos num país onde as pessoas podem se relacionar com quem quiserem. Um hétero que faz esse tipo de comentário jamais pensaria em precisar da aceitação de um bando de estranhos para namorar a mulher que deseja, por exemplo. Apenas ela precisa aceitar a relação. O cara acharia, provavelmente, um grande absurdo ouvir de um amigo (pior ainda de um estranho) que a mulher que ele quer não serve, por um ou outro motivo. “Quem te perguntou?” seria a reação mais lógica.

Ou seja: não temos de aceitar porque ninguém nos perguntou nada. As pessoas podem amar, namorar e transar com quem bem entenderem (desde que sejam adultas e que todos os envolvidos estejam de acordo – todos os envolvidos, ok?). Nosso consentimento para os relacionamentos alheios não vale um coquinho.

Agora, existe outra resposta, tão importante quanto a anterior: sim, nós somos obrigados a aceitar. Porque temos de respeitar todas as pessoas. Vou repetir, porque é básico mas mesmo assim muitos acham difícil de assimilar essa ideia: temos de respeitar todas as pessoas. Não temos o direito de sair por aí ofendendo ninguém. Mais do que isso: não temos o direito de transformar a vida dos outros num inferno, porque é isso o que a homofobia faz, transforma a vida de quem é afetado por ela num inferno.

Em resumo: não, não temos o direito de ser maus.

Digamos que eu te ache feio, muito feito. É um direito meu te achar feio (sou obrigada a te achar bonito, agora?), mas eu não tenho o direito de sair por aí te humilhando por causa disso, de comentar como teu nariz é horrível nas fotos que tu posta, de afirmar de novo e de novo como teu cabelo me dá náuseas de tão seboso que é. Pode ser a minha opinião – e tenho todo o direito a ela (sou obrigada a te achar bonito, agora?) – mas não devo sair por aí te ofendendo. A homofobia é meio que assim, mas pior, beeeeeeeeeem pior, porque essa “opinião” acaba tendo gravíssimas consequências na vida das pessoas afetadas. Tu poderia me bloquear se eu te incomodasse com os meus comentários sobre a tua terrível aparência. Agora, é difícil bloquear uma sociedade inteira dizendo isso, te impedindo de viver em paz, de amar em paz, de transar em paz, te ofendendo e te humilhando diariamente, das formas mais variadas.

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Eu, por exemplo, acredito que gatos são seres mais evoluídos do que humanos…

Ainda na questão dos relacionamentos homoafetivos, volta e meia alguém alega que é contra porque a sua religião não permite. Bom, assim como todos nós temos o direito de achar o que quisermos (desde que vivamos cordialmente em sociedade), também temos o direito de viver a nossa espiritualidade como nos convém. Se tu acha que Deus não quer que pessoas do mesmo sexo fiquem juntas, não fique com pessoas do mesmo sexo que o teu. Pronto. Ninguém aqui te obriga a jejuar no Ramadã, nem a cobrir a cabeça com um quipá, e a maioria dos brasileiros têm o prepúcio intacto, acredito, e querem continuar assim. Ou seja, mais uma vez é preciso afirmar o óbvio: cada um tem a religião que quiser e não deve obrigar os outros a aceitá-la. O estado laico é uma grande bênção: tu vai pro terreiro, ele vai pra sinagoga, eu vou tomar um passe…

Se eu acreditar que Deus é um unicórnio rosa invisível e que ele quer que eu coma chocolate de almoço todos os dias, posso fazer isso. Mas não posso obrigar mais ninguém a fazer isso – mesmo que eu ache que quem não comer chocolate de almoço todos os dias vai arder eternamente no mármore do inferno. Ainda bem, né? Imagina se, devido à minha crença, eu pudesse interferir na tua alimentação. Se eu acredito nisso, o problema é meu, só meu.

Para finalizar: alguns dias atrás, uma jornalista recebeu uma série de comentários maldosos ao postar uma foto no Facebook. O motivo: a moça é negra. Alguns comentaristas, acusados de racismo, responderam que não eram obrigados a achá-la bonita.

De novo: ninguém é obrigado a achar ninguém bonito, nem atraente, nem nada. Agora, somos obrigados, sim, a respeitar as outras pessoas. Voltamos à situação hipotética de eu te achar muito, mas muito feio. Tu acharia bacana eu ficar te humilhando em nome do meu “direito de expressão”? Não, né? Então…

Na boa, sempre vai ter alguém que nos acha feio, sempre vai ter alguém que nos acha tão atraentes quando uma tampinha de garrafa enferrujada esquecida na sarjeta. Mas não queremos que essas pessoas fiquem nos dizendo isso, nem comentando nas nossas fotos postadas em redes sociais. Porque, quando a moça é negra, muitos acham que não tem problema? O mesmo ocorre quando a pessoa é gorda. “Não sou obrigado a gostar.” Não, não é, claro que não é. Mas, por favor, tente não ser cuzão.

Categorias: Filosofando sobre a existência

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